REFLEXÕES DE UM POLICIAL

“Cogitationis poenam nemo patitur”

Quando cumprir a lei é crime.

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Os operadores de segurança pública, em especial, os policiais, sabem muito bem dos riscos a que estamos submetidos, quando estamos atuando na atividade fim da corporação. Os processos, acidentes, riscos físicos e psicológicos e até a morte são constantes, por isso nosso treinamento é diferenciado, a profissionalização é necessária e imperiosa.

A missão policial de empregar a força física com o consentimento da sociedade dentro da própria sociedade para provocar mudanças comportamentais é ingrata e muitas das vezes têm repercussões nada positiva. Porém, essa é a competência exclusiva do policial, somente ele é treinado, equipado e autorizado a usa a força legal.

O dever de fazer cumprir a lei e defender a sociedade já chamou muitos companheiros para o cumprimento de fato do nosso juramento “mesmo com o sacrifício da própria vida”. Mas aqueles responsáveis em proporcionar o treinamento inicial e manter esse treinamento no decorrer da carreira policial, sabem que um dia, qualquer dia, o policial que atua na atividade fim de nossas corporações terá que usar a força legal para cumprir a lei, para proteger a sociedade e para proteger a própria vida ou de terceiros.

Sabemos que esse dia, não será um dia de glória, muito pelo contrário, será um dia de reflexão profunda. Já tive a oportunidade de ver companheiros pensando em sair da instituição após um confronto com vítima fatal. Mas essa peculiaridade do serviço policial é uma das suas dimensões mais difícil de ser prever, e quando acontece, de se superar.

Com essa introdução sobre o uso da força legal, gostaria de comentar sobre um fato que ocorreu no município de Rondon do Pará, recentemente. Cidade com mais de 50.000 habitantes, Rondon do Pará possui certo destaque na sua região, sendo policiada pela 11ª Companhia de Polícia Militar do Pará, contando, ainda, com uma Delegacia de Polícia Civil, com um Delegado Titular (não é um privilégio de todos os municípios do Pará), com uma Comarca Judicial (também não é privilégio em todos os municípios do Pará).

Numa certa noite do mês de janeiro, já pela sua madrugada, uma guarnição que estava de serviço de rádio-patrulhamento foi acionada via central de comunicações, sobre a existência de uma pessoa que tentara adentrar em uma festa local, portando uma arma de fogo, sendo que fora impedido pelos seguranças particulares. As informações indicavam que esse cidadão possivelmente teria indo em direção a uma praça que fica as proximidades do local da ocorrência.

Os elementos presentes na ocorrência: arma de fogo e substância psicotrópica (bebida alcoólica), adicionadas ao horário da ocorrência, tem a capacidade de transformar essa situação em uma atuação de alto risco, onde todos os cuidados necessários para uma abordagem vigorosa devem ser tomados, e isso, com certeza, foi motivo de uma reflexão por aqueles policiais, pois os conheço e sei das suas experiências como operadores de segurança pública.

O que de fato ocorreu durante a abordagem policial ao denunciado que fora localizado na mesa de um bar na dita praça pública, está sendo apurado através de inquérito policial instaurado e presidido pelo Delegado Titular de Rondon do Pará. O resultado foi que o acusado foi baleado e mesmo socorrido pelos próprios policiais não resistiu aos ferimentos e veio a óbito. Uma outra pessoa foi baleada e socorrida pelos policiais, não correu risco de morte e seu ferimento foi provocado por um projétil de arma de fogo, um revólver calibre 38, a arma do mesmo calibre encontrada com o acusado – vítima.

Os policiais, que também foram vítima da resistência, tomaram todas as medidas legais necessárias, porém para o Ministério Público local não foi suficiente, talvez levado pelo excesso de cuidado com os procedimentos policiais, “usurpou” a competência do Delegado local e pediu a decretação da Prisão Preventiva dos policiais.

Com suas prisões decretadas, aqueles policiais que estavam de serviço, foram acionados para uma ocorrência policial, cumpriram com seu dever e principalmente com seu treinamento, ficaram presos por 15 dias a disposição da justiça. Adivinhe quem paga o advogado? Isso mesmo, o próprio policial. Adivinhe quem é o culpado para o MP? O policial que estava de serviço. Adivinhe qual o apoio recebido pelos policiais por parte da nossa instituição? Isso mesmo, nenhum.

A realidade policial no Pará é essa, dez, quinze, vinte, trinta anos de serviço, não vale nada. Na dúvida “pau no policial”. Qualquer pessoa vale mais que um policial de serviço. Deve ser porque o Estado que ele representa, também não tem mais credibilidade. Eu convido as pessoas em geral, em especial de Rondon do Pará, que na próxima vez que uma pessoa estiver na madrugada, em um bar ou outro local público, armado, não chame a polícia, pois ela não pode cumprir a sua missão. Acredito que devam chamar o Ministério Público, principalmente aquele que pensa ser policial, ganhando bem e no conforto de um gabinete.

2 Respostas

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  1. Muito bom, senhor. Parabéns pelo texto. Não conhecia este blog, mas agora vou ser visitante assíduo.

    José Ricardo

    01/27/2009 at 13:22

  2. Obrigado pela visita.
    Estamos de endereço novo, título novo, mas o mesmo conteúdo.
    http://blog.claudiomarinofdias.com.br
    Um abraço

    Claudio Marino F Dias

    02/03/2009 at 8:21


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