REFLEXÕES DE UM POLICIAL

“Cogitationis poenam nemo patitur”

Chovendo no molhado

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Como primeira postagem do ano 2009 estava apostando em algo positivo, pois estamos vivendo em época de crises em diversas áreas. Portanto nada como iniciar esse novo ciclo com uma pitada de otimismo e esperança.

Por isso, esperei, esperei, esperei e fiquei na expectativa para que surgisse tal notícia, até fiz vista grossa para algumas entrevistas ou comentários. Mas, após uma semana de vã esperança não posso deixar de comentar sobre os fatos que vem ocorrendo. Recentemente, o advogado Ofhir Cavalcante, que já foi presidente da OAB – PA vaticinou que a segurança no Pará está na UTI e que as autoridades devem tomar medidas enérgicas para a retomada da segurança no Estado. Logo em seguida, um Procurador do município de Belém foi morto durante uma tentativa de roubo em pleno Centro de Belém.

Esse diagnóstico sobre a segurança pública não é novo, pois as bases que alicerçam essa situação possuem origens históricas, porém o que estamos assistindo é uma paralisia total dos responsáveis pela segurança pública no Estado. Parece que o governo colocou a culpa na falta de efetivo para todos os problemas que ocorrem dentro das instituições policiais e joga todas as suas fichas nisso. Com essa visão que deve está sendo repassada para o governo pelos gestores de segurança, estamos aí, desesperados, fazendo inclusão de novos policiais, como se a quantidade fosse realmente o problema, portanto, vamos incluir em regime intensivo de seis meses ou menos, não interessa que não estejam preparados, o que interessa é o número e não a qualidade da formação.

O que interessa é o policial na rua em grande quantidade, mesmo que ele não saiba qual o seu papel na sociedade, não interessa também que daqui a poucos meses, o seu salário (um dos piores do Brasil) não suporte manter suas necessidades básicas e aquele policial comece a fazer o “bico” e a segurança pública passe a ser apenas um complemento da sua renda – pois o “bico” o remunera melhor.

Não interessa que esse novo policial entre no ciclo serviço e “bico”, estando sempre cansado e estressado para atender o cidadão, normalmente no momento de extrema angústia e necessidade, de forma displicente ou arrogante. Não interessa que o trabalho na rua seja visto para uma grande parte dos policiais como um castigo, pois as promoções por “merecimento”, as medalhas, os elogios, as diárias e gratificações são para os que trabalham nos gabinetes.

Não interessa realmente que apenas uma pequena parte dos policiais receba o famoso DAS, que serve como uma verdadeira mordaça e grilhões contra qualquer tipo de comportamento “antiético” ou de empatia com a grande massa dos operadores de segurança pública. Não interessa sabe que o governo federal criou o Programa Nacional de Segurança com Cidadania – PRONASCI, surgindo o conceito do policial de baixa renda, o que chegaria a ser cômico se não fosse trágico, pois a imensa maioria dos policiais do Pará está incluída nessa nova categoria.

Nada disso interessa segundo o que as ações e declarações das autoridades policiais demonstram o que interessa é a quantidade. Com quantidade iremos resolver todos os problemas da segurança pública, aqueles que não estiverem de acordo que procurem outra profissão, afinal nós teremos a quantidade.

Mas, nós pobres cidadãos – o policial é um cidadão – temos um alento, o descaso vem proporcionando uma verdadeira mudança na abordagem sócio – política da violência. Estamos vivenciando uma verdadeira revolução na área da segurança pública, vivemos tempos de democratização da violência. Os atingidos não são somente os “três Ps”, mas as pessoas mais abastadas da sociedade, isso deve ser o avanço prometido pelo programa de governo.

Em épocas passadas, os operadores de segurança tinham a certeza que nada iria mudar e que as melhorias não iriam acontecer, por isso lutavam do que jeito que podia para realizar os seus deveres e cumprir minimamente o seu papel na sociedade. Porém, dessa vez, acreditamos que tudo iria melhorar e que as necessárias condições de trabalho seriam supridas, que as arbitrariedades e desmandos iriam ser coisa do passado.

Quanto ao salário, acreditaram que finalmente iriam ter um pagamento justo e condizente com tão arriscada tarefa, não mais seriamos taxados de policiais de baixa renda. Porém, a inércia do governo e das instituições de segurança pública já transformou a esperança em desespero, as metas na área de segurança pública do programa de governo já viraram promessas eleitoreiras. As melhorias esperadas já não são mais esperadas e sim o ano de 2010, pois tudo está como antes e ninguém agüenta mais.

Written by Claudio Marino F Dias

01/09/2009 às 14:35

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