REFLEXÕES DE UM POLICIAL

“Cogitationis poenam nemo patitur”

Terror em Itupiranga – Crônica de uma tragédia anunciada.

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Uma manhã ensolarada na cidade de Itupiranga (origem tupi, significa Lago Vermelho ou Cachoeira Vermelha), distante há 42 km de Marabá, cidade aprazível e pouco conhecida dos paraenses. Quando surgem dez homens armados de fuzis e escopetas trazendo consigo a violência, na sua forma mais incisiva, através do terror, simplesmente com objetivos de roubar o dinheiro da agência bancária daquela cidade.
Encontrava-me na recepção do ambulatório médico em Rondon do Pará, esperando o horário de meu atendimento, quando recebo um telefonema de um amigo, dizia ele “Está acontecendo um assalto em Itupiranga, muitos tiros e pessoas mortas. O Sub-Gerente do BB foi morto. Outra funcionária parece que foi morta. Muitas pessoas foram baleadas. Os PM’s foram rendidos e tomados como reféns. Isto aqui parece uma guerra”. Fico a imaginar o sentimento de medo e impotência daquelas pessoas assistindo aquela cena de violência que parece ter sido transportada de algum ponto do Oriente Médio para aquela aprazível cidade.

Uma lembrança surge como um relâmpago, não seria essa cidade que em um passado não tão longínquo, foi noticiada no jornal “Correio do Tocantins”, periódico de maior circulação em Marabá e municípios circunvizinhos, onde o Delegado de Polícia estava entregando as intimações de bicicleta.

Uma lembrança mais remota tem a magia de trazer a tona outras não tão remotas, mais muito importantes para temos uma explicação para aquela cena de guerra que estava ocorrendo. Uma tentativa vã de desviar o pensamento dos companheiros policiais que estão naquele front de guerra, totalmente desprevenidos e não alertados para uma situação como aquela, onde vidas estão expostas ao perigo de forma intensa e os conhecimentos adquiridos nos treinamentos policiais podem apenas minimizar a crise instalada. Peço a Deus que naquele momento o bom senso dos policiais aja e diminua o risco para as vidas inocentes que ali estão sendo ameaçada, isto é que a fuga aparente* seja a decisão daqueles policiais, pois alternativas não existem.

Dizia que lembranças trazem a tona outras lembranças, como num caleidoscópio de fatos, fico a imaginar que não seria essa cidade, onde há 15 dias, o mesmo jornal denunciava que os Policiais Militares estavam realizando cotização com os comerciantes para compra de combustível para a viatura policial realizar rondas. Não seria essa cidade com 42 mil habitantes e apenas 9 Policiais Militares, a 12º cidade mais violenta do país, segundo pesquisa do Instituto RITLA e divulgada através do Mapa da Violência nos Municípios do Brasil – 2008.

Na mesma matéria jornalística citada, há denuncias que os Policiais Civis estariam realizado cotizações para realizar a limpeza do prédio da Delegacia de Polícia. Também, não seria nessa cidade, onde a situação política apresentada é que o atual Prefeito está ameaçando o seu sucessor, de que o mesmo não irá assumir a Prefeitura de jeito nenhum (o Prefeito atual foi derrotado na eleição municipal de 2008), sendo que tal fato também é noticiado de forma ampla pela impressa regional e está sendo apurado pela Polícia Civil.

Fico a refletir que em Marabá e região está sendo desencadeada a “Operação Itacaiúnas” pela Polícia Civil, onde estão sendo efetuadas “Blitzes” e outras ações ostensivas pela PC, porém já estamos a registrar roubos a estabelecimentos bancários na região (Tucumã, São Domingos do Araguaia, Itupiranga) durante esse período de final de ano. Esses crimes são realizados por organizações criminosas e devem ser combatidos com inteligência policial e investigação, porém temos vários policiais civis responsáveis pela investigação policial fazendo policiamento ostensivo nas ruas e estradas da região na divulgada “Operação Itacaiúnas”.

Lembro-me das “promessas” sobre segurança pública para a região: Instalação de uma Companhia de Operações Especiais, instalação de Zonas de Policiamentos nos moldes de Belém, instalação de um Grupamento Aéreo, Apoio total para o Comando de Policiamento Regional de Marabá e outras medidas de nível administrativo, que até agora ficaram nas promessas eleitoreiras e pós-eleitorais, e depois pré-eleitorais, daí seguindo para um ciclo infernal de promessas eleitoreiras e eleitorais.

Talvez essas organizações criminosas não tenham as informações e conhecimentos sobre a área de segurança pública tanto quanto os operadores de segurança, mas talvez eles leiam os jornais da região, o que parece que nossas autoridades na distante capital do Estado, não o façam. O crime organizado age e as polícias reagem, enquanto for assim, ninguém estará seguro nem em seu local de trabalho e nem em suas residências. Outras Itupirangas existem no Pará e com certeza esse é só o prenúncio de outras tragédias anunciadas.

*A crônica policial tem demonstrado que, em muitos casos, optando por preservar vidas inocentes, mesmos quando isso contribua para uma momentânea fuga ou vitória dos elementos causadores da crise, os responsáveis pelo gerenciamento da crise adotaram a linha de conduta mais adequada, em virtude de ulterior captura dos meliantes. A aplicação da lei pode esperar por alguns meses até que sejam presos os desencadeadores da crise, enquanto que as perdas de vidas são irreversíveis (DE SOUZA, pg 17, 1995).

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