REFLEXÕES DE UM POLICIAL

“Cogitationis poenam nemo patitur”

Um arsenal na escola

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Na tarde de terça-feira (17/11), em uma Operação Policial que visava realizar prisões de chefes do tráfico de drogas do Morro São João, na Zona Norte (RJ), suspeitos de terem invadido um morro vizinho no fim de semana e provocado a morte de seis pessoas. Resultou na surpreendente apreensão de armas, drogas e munições escondidas no interior de uma escola pública, no caso o CIEP Frei Agostinho Fincias, no bairro Novo Hamburgo.

O arsenal encontrado era composto de 26 carregadores de pistola, três carregadores de fuzil, 13 pistolas, um fuzil, uma metralhadora, três granadas e muita munição. Foram encontrados, ainda, celulares e radiotransmissores, além de 462 papelotes de cocaína, 1.111 pedras de crack, 50 bolas de haxixe, 700 gramas de maconha, 908 trouxinhas de maconha, R$ 2 mil em espécie e jóias e relógios.

Esse quadro dantesco em que traficante utilizam uma escola para servir de paiol, é mais um caso tenebroso e escandalizante no caos da segurança pública vivenciada no dia-a-dia do brasileiro. São situações emblemáticas como essa que mostram toda uma realidade de perigo e insegurança vivenciada nos dias atuais. As crianças e os professores que formam aquela comunidade escolar com toda a certeza estão correndo mais perigo dentro do estabelecimento de ensino do que nas ruas da cidade.

Os órgãos competentes como a Secretaria Estadual de Educação e a Polícia Militar, como sempre, foram ágeis nos seus comunicados a imprensa, seguindo aquele velho padrão de informação: Iremos apurar em sindicância e esperar a apuração policial para tomarmos providências (ou seja, nada), pelo lado da Secretária de Educação, enquanto a PM, informa de primeira mão e ao vivo para o Brasil que a educadora e diretora da escola não é conivente (isso é que é apuração policial eficiente e eficaz).

Porém, as causas não são discutidas ou levadas ao conhecimento do público e as conseqüências, essas não interessam a ninguém (afinal, semana que vem aparece outro assunto) e o Brasil monotemático é rapidamente arrebatado para assuntos mais urgente.
Entretanto, não poderia deixar de registrar que esse fato ocorrido no RJ é apenas um efeito iceberg, estamos vendo apenas a ponta, o maior volume está embaixo d’água e é ele que faz o barco naufragar.

Pesquisas recentes em 14 regiões metropolitanas do Brasil, entre 33.000 alunos e 143 diretores de escolas públicas mostram que a violência na escola é bem diversificada e presente no seu cotidiano, indo desde briga entre alunos (62,9%), uso de drogas (58%), pichações e depredações (54%), roubo ou furto (49%), alunos armados (28%), agressões morais (28%), ameaças aos professores (25%), venda de drogas nas proximidades (19,6%), violência sexual (15%) e homicídios (5,6%), dentre outras situações. Essa pesquisa aceitava mais de uma resposta para a seguinte pergunta “Quais os maiores problemas enfrentados por esta escola, no que se refere a situações de violência?”.

Mas o que fazer para mudar essa realidade? Exemplos práticos existem no Brasil, afinal vivemos no país dos paradoxos e das inúmeras realidades sociais, dos governos bem intencionados (só na intenção) e dos governos atuantes e participativos. As escolas que foram bem sucedidas na redução e prevenção das violências têm em comum a inserção de estratégias que promoveram mudanças qualitativas na relação com a comunidade, na participação das famílias e da comunidade, no engajamento dos professores e demais funcionários, no uso e na percepção do espaço físico e na sociabilidade.

Essa abertura e o fortalecimento de caminhos para a prevenção da violência dependem fundamentalmente da participação de todos os agentes escolares – diretores, professores, alunos, funcionários e pais – na construção de relações sociais mais solidárias, cooperativas e prazerosas. Ao mesmo tempo, as ações das escolas nesse sentido devem ser apoiadas por todas as instâncias do governo, dos poderes legislativo e do judiciário e da sociedade civil.

Como disse exemplos práticos não faltam. Mas como tudo, a cidadania é adquirida pela sua prática diária, nos casos das escolas não é diferente, deve-se exercitar diariamente a cidadania visando à construção do bem comum – promessa constitucional e finalidade única do Estado. Ou isso, ou ficaremos apenas com a resposta do Comando da PM e da Secretária Estadual de educação.

2 Respostas

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  1. Cláudio,

    Morei por vários anos no RJ e conheço um pouco a realidade de lá. O que me deixa triste com todo esse episódio é o fato de o RJ ser denegrido pelas drogas e seus ilícitos adjacentes e não possuir naquele solo plantações de coca e nem de maconha, dentre outras, em escala comercial e rentável.
    Assim, penso que esta situação de descontrole não tem fim! Não por vontade daquele povo maravilhoso, mas por causa de um sistema onde prevalecem o poder e o dinheiro.
    Na minha ótica, esse descontrole teria um embargo imediato com o fechamento das principais vias de acesso ao RJ(falo em fiscalização mesmo, não “capa”). Desta forma, haveria uma diminuição imediata da entrada de drogas na Cidade Maravilhosa. Porém, sabemos que isto é U T O P I A, pois, como já me referi, o sistema é forte e prevalece. Pobre rico Rio de Janeiro….
    Abraços do Professor Pedro Cardoso

    Pedro

    11/19/2008 at 22:20

  2. Caro amigo Pedro Cardoso, concordo com você quanto a situação do RJ, pois todo sabem que as drogas e as armas que são apreendidas naquele Estado são frutos de contrabando e tráfico internacional de drogas.
    A mídia, hoje, possui um poder muito grande em nossa sociedade, podendo construir ou destruir mitos, é o que vem ocorrendo com a Cidade Maravilhosa. Essa exposição contínua de fatos cotidianos de violência urbana tendo como plano de fundo o tráfico de drogas e a luta de facções criminosas pelo controle do mercado de drogas vem transformando a imagem daquele lugar na mente das pessoas, transmitindo a nítida mensagem que é um lugar violento e que não condições de pacificação.
    O que não é discutido pelos meios de comunicações são os fatores que conduzem as pessoas para o uso de drogas e as conseqüências desse uso dentro de suas comunidades. Pois, o tráfico de drogas, assim como o mercado lícitos de drogas, funciona obedecendo a lei da oferta e da demanda, portanto apenas ações dos operadores de segurança pública visando à diminuição da oferta não seriam suficientes, e sim ações coordenadas entre os diversos órgãos estatais e a sociedade civil organizada, visando a diminuição da demanda pela droga, ou seja, minimizando os fatores de riscos e ampliando os fatores de proteção naquelas comunidades atingidas pelo tráfico de drogas.
    Portanto, dentro dessa ótica, acredito que alguma coisa já vem sendo feito principalmente em nível de ONG, como a VIVO RIO, porém de maneira insipiente. Acredito que o fortalecimento de iniciativas como a citada junto com a articulação entre os vários atores sociais das comunidades, como conselhos, escolas, ONGs e Estado (nos seus três níveis) podem formar grandes redes de proteção social que poderiam frear essa situação caótica e quiçá reverter tal quadro absurdo que vem ocorrendo, com o controle de um estado paralelo e criminoso.
    Quanto a ser utopia meu caro amigo, acredito que estamos prontos para mais um passo, pois a resiliência do ser humano é grande e com certeza algum dia poderemos alcançar mais esse patamar civilizatório, afinal o homem transformou a utopia em realidade quando deixou de morar em cavernas.
    Um abraço.

    CLAUDIO MARINO FERREIRA DIAS

    11/20/2008 at 14:21


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