REFLEXÕES DE UM POLICIAL

“Cogitationis poenam nemo patitur”

O desfecho do sequestro do ABC Paulista

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“O maior erro que se pode cometer na vida é o medo constante de cometer erros” ELBERT G. HUBBARD*
O desfecho do Seqüestro do ABC paulista apresentou uma conclusão trágica, porém, previsível. Não posso dizer que “eu já sabia”, até porque seria leviano, pois não estava no local e nem tenho todas as informações necessárias para ter essa conclusão antecipada.
Contundo algumas indicações já era visível, e isso já vem causando uma grande polêmica, principalmente na mídia televisiva. A decisão de retornar com a jovem Nayara para a cena da ação e sua conseqüente retomada como refém pelo seqüestrador é no mínimo infeliz, para não dizer desastrosa. No artigo anterior, referi-me a esse ponto como uma decisão do comando do gerenciamento da crise, porém, após a entrevista coletiva no local da ação pelo Comandante da Operação, deixou-me perplexo a sua declaração que “Nayara não era refém, estava ali porque queria”, ora se as coisas fossem assim, a mãe e os outros parentes também poderia entrar no apartamento e ficar ali porque queriam. Se não existiu nenhum motivo plausível para a recolocação de Nayara naquele local e naquela situação podemos considerar que foi um erro gravíssimo por parte do gerenciamento da crise.
Outra situação que não poderia ter ocorrido e isso ficou consolidado principalmente após a retomada de Nayara como refém foi à continuidade da comunicação externa do seqüestrador, ora se a energia foi cortada e religada após a liberação de Nayara, o seqüestrador deixou de cumprir com a sua parte ao ter-la retomado como refém, o que poderia deixar a polícia livre para cumprir com mais esse requisito técnico para um bom gerenciamento de crise, o total isolamento do cativeiro.
A resolução dada ao caso não foi com certeza a que estava no planejamento específico, pois até o comando da crise foi pego de surpresa, mas era uma das alternativas táticas possíveis: A invasão tática combinada com o uso de armamento não-letal. Pela experiência e conhecimento da ação de grupos de ações táticas, tenho plena convicção que a alternativa apresentada foi fruto de uma reação a atitude violenta do seqüestrador, pois era visível no semblante dos policiais a indignação e tristeza pelo resultado trágico do desfecho. Na crise negociar sempre será o norteador da ação de qualquer policial, principalmente para aqueles que são preparados para essa situação onde a vida está em perigo e somente à preservação de vidas é considerada uma vitória.
Em termos de segurança pública e defesa social fica cada vez mais patente que a boa e velha técnica policial é quase uma ciência exata, pois dificilmente os improvisos e decisões diferenciadas dos ensinamentos adquiridos resultam acertos. Temos mais um caso para ser estudado e retirados ensinamentos fundamentais para que vidas preciosas como da jovem Heloá não seja sacrificadas em vão – digo sacrificada, pois independente do resultado da sua cirurgia e caso venha a sobreviver, a sua vida jamais será a mesma – pois, o criminoso cumpriu com maestria sua meta inicial. Ninguém vai falar com a ex-namorada com duas armas de fogo e farta munição para apenas pedir seu perdão e tentar uma reconciliação, ninguém vai pedir para reatar uma relação e passa a agredir fisicamente (Nayara ao sair do cativeiro relatou a polícia às inúmeras agressões sofridas por Heloá).
Concluo dizendo que Lindember foi para tomar a vida de Heloá não por amor, mas por egoísmo e que todos os esforços policiais para a preservação da vida foram válidos, pois a ação era de alto risco de perda de vida humana. A polícia paulista no dia do desfecho já tinha quase as mesmas conclusões apresentadas e tentou de todas as formas evitar essa tragédia, porém apenas uma pessoa poderia evitar-la e esse alguém mostrou que apenas a intolerância, o egoísmo e desprezo pela vida humana guiava-o nos seus objetivos. A polícia paulista não deu causa para o desfecho trágico do caso, pois sua missão era de preservar a vida e aplicar a lei, e isso podemos observar que tentaram a todo custo, porém algumas falhas ocorreram principalmente as duas já citadas e que poderia aumentar o passivo de vidas humanas, mas no final aqueles policiais refletirão e chegarão a conclusão de que tudo o que foi possível foi feito e que novos aprendizados foram inclusos na sua vida, e quiçá no futuro outras vidas serão salvas por causa disso. Aos familiares deixo meus sinceros sentimentos, pois todos perderam em graus diferentes, porém perdas significativas para todos, inclusive para toda a nossa sociedade, pois a violência, a intolerância e o egoísmo prevaleceram neste dia no Estado mais importante de nossa federação.
Que Deus abençoe e proteja a todos!
* Elbert Green Hubbard (19 de junho de 1856, em Bloomington, Illinois, EUA – 7 de maio de 1915) foi um filósofo e escritor estadunidense.

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