REFLEXÕES DE UM POLICIAL

“Cogitationis poenam nemo patitur”

O sequestro no ABC Paulista

leave a comment »

“Gerenciar crises é negociar, negociar e negociar. E quando ocorre de se esgotarem todas as chances de negociações, deve-se ainda tentar negociar mais um pouquinho…”.

Acompanhando o seqüestro das jovens Heloá e Nayara pelo ex – namorado daquela, Lindeberg. Podemos verificar a existência de uma crise dentro do contexto policial, que tem como conceito “Um evento ou situação crucial que exige uma resposta especial da Polícia, a fim de assegurar uma solução aceitável”.

Dentro da doutrina de Gerenciamento de Crise podemos afirmar que existe a presença de duas reféns seqüestradas, pois o seqüestrador tomou providências no sentido da preparação do seu ato, pois se encontra com duas armas e farta munição, o que dá indicação positiva para um planejamento antecipado.

Não podemos perde de vista que qualquer tarefa de gerenciamento de crise tem duplo objetivo: Preservar vidas e Aplicar a Lei. Isto de uma forma hierárquica, onde preservar a vida está acima da aplicação imediata da lei pelos operadores de segurança pública, pois a aplicação da lei pode esperar por algum tempo até que seja preso o desencadeador da crise, enquanto a perda de vidas é irreversível. Portanto o gerenciamento de crise tem esses pilares como finalidade, pois assim pode conduzir suas técnicas para a resolução dos incidentes com sucesso, com o mínimo de perda de vidas, segurança dos envolvidos e garantia do cumprimento da legislação.

No caso concreto em análise podemos dizer que é uma crise do 4° grau de risco – Ameaça Exótica (segundo doutrina do FBI), pois temos uma pessoa armada com duas reféns seqüestradas, por motivo qualquer que nem o próprio seqüestrador sabe informar, ameaça os reféns e dispara contra as forças policiais.

Dentro dessa classificação podemos afirmar que o nível de resposta do comando de gerenciamento de crise deve ser dentro da classificação do grau de risco, como podemos observar no caso em questão, com o emprego de equipes especiais e com apoio de profissionais de áreas específicas, como por exemplo, psicólogos e psiquiatras forenses. O nível de resposta correto é de suma importância para o desfecho favorável na crise.

Podemos, ainda, analisar a tipologia do causador da presente crise, segundo a obra “Como ser um refém e sobreviver” do Capitão Frank Bolz Junior, do Departamento de Polícia de Nova York, como o emocionalmente perturbado, o que nos EUA representa o maior índice de causador de crise, enquanto no Brasil na existe dados estatísticos confiáveis e nem casos estudados de forma profunda, apenas vinculamos essas situações à prática de crimes passionais, o que com absoluta certeza, está causando uma grande dificuldade no desfecho da crise e deixando todo o público que a acompanha o caso apreensivo.

As alternativas táticas existentes para a atuação da força policial durante uma crise são: Negociação, O Uso de Técnicas Não-Letais, O Tiro de Comprometimento (Atirador de Elite) e A Invasão Tática. No caso do ABC paulista podemos observar que a negociação vem sendo mantida a qualquer custo, a fim de evitar o uso de alternativa tática diversa dessa para a resolução da crise. As negociações já ultrapassam às 90 horas quando da confecção desse artigo.

Quanto à organização do cenário, a polícia paulista vem cumprindo rigorosamente as condições básicas para um bom gerenciamento de crise no que tange ao isolamento do perímetro crítico e o controle das informações para a mídia, pois no caso em tela, o causador da crise tem meios de comunicação a sua disposição, como por exemplo, o telefone e a televisão, portanto cada informação repassada a mídia pode ser transmitida ao seqüestrador. O que deixa um pouco a deseja nesse sentido, pois deveria deixar o causador da crise sem comunicação com o mundo exterior, pois como foi colocado o mesmo tem acesso aos meios de comunicações existentes no apartamento. Outro ponto polêmico foi o retorno da jovem Nayara para o apartamento, onde já havia sido libertada, contundo essas decisões são de inteira responsabilidade do comando do gerenciamento da crise que deve ter seus motivos.

A situação encontra-se no seu desenrolar e várias podem ser as soluções encontrada nesse evento crítico. A rendição pura e simples do seqüestrador, a saída negociada, a resiliência das forças policiais, o uso de força letal ou, até mesmo, a transferência da crise para outro local, citando como exemplos do que pode acontecer. Não importa, na realidade qual a solução que vai ser tomada, ela há de ser executada ou implementada através de um esforço organizado que se denomina Resolução. Nesse momento a figura do comandante da cena da ação assume seu papel de suprema importância no gerenciamento da crise, assegurando o bom êxito da solução escolhida.

Concluindo este artigo desejo aqueles policiais que estão empenhados na condução da crise que seus treinamentos sejam colocados em prática e que tenha sucesso na sua missão, aos familiares dos envolvidos que tenham confiança nos profissionais que estão conduzindo o caso e que ore a Deus pelo retorno da razão e do bom senso ao seqüestrador. Deixo aqui, independente da resolução tomada e do desfecho dessa situação, meus sinceros votos de sucesso aos operadores de segurança pública que estão se dedicando ao caso e que o Grande Arquiteto do Universo possa guiá-los para a melhor decisão possível.

UM ABRAÇO.

Written by Claudio Marino F Dias

10/17/2008 às 17:13

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: